quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O novo morador da Quinta

Bóris, agente especial com licença para morder cabras comedoras de couves e salsa.
Ainda em treinamento.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O cúmulo da ninharia

Hoje me lembrei de Paulo Pino, o meu vizinho hilário que contava em seu estilo inimitável o desespero com as cozinhas e banheiros ingleses que o impediam de fazer uma faxina como se deve. O motivo embora prosaico, reconheço agora, é instransponível. As cozinhas e banheiros daqui não têm ralos. Portanto, nada daquelas belas sessões de ensaboamento e baldes d´água que limpam a alma. Sequer tenho um rodo. Tudo é feito na base da tal esfregona. Faxina de verdade com esfregona ? Peço desculpas. Que saudades dos ralos da minha pátria.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A África de cá

Aqui a África é logo ao lado. Exílio recente, cicatrizes de guerra. Terra de abundância, elefantes e plantações. E pouquíssimos pretos.

A África de lá


Minha sensação, no Brasil, era de uma África distante, continente imaginário.
Mama África, danças, comidas, colares e peles macias. Quase pura mitologia.
Inclusive de sermos todos negros.

dos interditos


É mais do que sabido inevitável
Não pensar em um urso branco
Se for o pensamento proibido
Por isso meu amor hiberna
Em alguma caverna em mim
e tenho medo

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

outra foto da Torre (por Olivier)


As idéias estão no ar



Élio me chama para ir correndo ver Eric Cantona convocando as pessoas a tirarem seu dinheiro dos bancos. Foi o que eu disse que as pessoas deviam fazer, quando discutíamos sobre a eficácia das greves nos tempos que passam. Grande Cantona.

A foto é da Torre da Serra da Estrela, o ponto mais alto de Portugal Continental, aqui pertinho de casa.

Tempo de Azeitonas


Domingo fui pela estrada colhendo as que ficaram esquecidas pelos seus donos e voltei com os bolsos do casaco cheios delas. Coloquei na salmoura e vou esperar. Um trote que as crianças adoram pregar aos estrangeiros é oferecer o fruto no momento que é colhido. É mais amarga que jiló.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Momento Bashô

As cores do outono e o frio dos dias.
Estamos vivos.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Dia de São Martinho




Foi ontem. Mas como hoje é sexta feira, continua valendo beber jeropiga e comer castanhas. No São Martinho vai à adega e prova o vinho!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Trasmontanos

Mais uma que eu não sabia. As danças do folclore de Trás- os- montes ( e não " de trás dos montes" como dizemos no Brasil) são acompanhadas por ... gaitas de fole ! E os gajos usam saias!!! Só não bebem whisky. Mas tomam jeropiga e dão saltos mortais uns por cima dos outros. Juro que é de arrepiar de medo. Dá a impressão de que vão fraturar os crânios a qualquer momento. Nada daqueles saltos olímpicos, atléticos, pulam de qualquer jeito, uma temeridade. Neste dia, não quebraram nada. Ou melhor, só os bastões que eles usam como se fossem espadas. E ficam todos contentinhos quando voam as lascas. Coisa de macho mesmo. De saia rendada.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Azeitão e eleições

O ano passado houveram eleições aqui, para os Conselhos, o equivalente às nossas municipais. Foi em Azeitão que testemunhei a única cena tola e populista que me lembro. Uma charrete, com pessoas vestindo roupas típicas, divulgando um candidato com bandeirolas. Tudo mais que vi e ouvi foram debates políticos. Mais ou menos interessantes mas políticos. Com um detalhe. Não vi ninguém que, mesmo se declarando de direita, fosse capaz de um discurso remotamente próximo ao reacionarismo dos que se dizem centro e centro-esquerda no Brasil. Nem os monarquistas são tão equivocados quanto este Partido Verde pentecostal que quer abolir o estado laico ao mesmo tempo que combate o darwinismo.
Nem as velhinhas católicas que me abordaram pedindo que eu assinasse uma petição contra o casamento homessexual, o que obviamente declinei, exibiram qualquer atitude remotamente parecida com as grosseiras e preconceituosas colocações de alguns colegas ao falar das pessoas atendidas pelo programa social mínimo brasileiro. Quanta diferença do nosso indigente debate brasileiro. Quanta vergonha e tristeza eu sinto.





quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Mais Portugal

Arganil é bem pequena e não fica muito longe daqui. Há outras fotos talvez mais ilustrativas do que é a aldeia mas acho que este armazém é mais significativo de outra coisa. A permanência da história inscrita na cidade que me trouxe uma outra, muito distante. Havia um armazém parecidíssimo com este no caminho para a cidade do meu pai, Terra Roxa. Da fachada à inscrição mudaram tudo. Como mudaram a praça da cidade, as fachadas de quase todas as casas, sem que a cidade tenha sequer melhorado em algum aspecto. Eu não sou passadista mas esta obssessão por apagar todas as marcas do passado, tão comum no Brasil, me dá um mal estar. Acho patológico.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Pausa

Hoje faz 7 dias que a Clayre se foi. No entanto os amigos não vão embora porque já estão entranhados na gente. De todo modo, me deu um susto, me deu um baile, me deu uma tristeza, me deu vontade de desistir de muita coisa.
Acontece que, entre muitas outras coisas, se não fosse ela, eu tinha deixado esse caderno para lá desde o inverno e por isso, não vou desistir de nada.
Vou só ficar um tempo quietinha, esperando a dor passar.

sábado, 24 de julho de 2010

Meruge

As festas na aldeia têm barracas de comida e artesanato e também música e dança. Me senti no túnel do tempo

Belmonte


Portugal, como se sabe, tem uma comunidade judaica minúscula. Belmonte é considerada a cidade mais " israelita" e sequer tem um rabino residente. Nós fomos lá.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Toda arte aspira a ser música

Eu concordo e mais uma vez não lembro quem disse isso. A minha cabeça está cheia de idéias dos outros e eu não pago direito autoral. Vergonha.
Voltei ao violão. Há tanto tempo não cometia uma musiquinha.
Ontem saiu essa. Acho que vai chamar " Sentindo"

Nos tempos do conformismo
se acredita que energias emanam
dos relógios parados dentro de casa,
mas se ignoram os genocídios,
se consente a mentira de ministros de estado,
se assiste passivamente os crimes de guerra
justificados com cinismo nos mesmos discursos
que falam de liberdade.
Não se acredita em nada e se suporta tudo.
E todos à procura de um afeto para suportar o vazio do mundo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

claridade da manhã

Essas flores se parecem com a Clara Clarividente. São simples, lindas e perfumadas. E tão modestas que devem ter estudado na sua escola de boas maneiras.
Eu ia ficar triste hoje, confesso que ia. Mas o sol veio beijar a relva logo cedo e eu aspirei estas alfazemas aí do lado e me convenci: logo, logo ela vem nos ver. E foi assim que ficamos contentes, as flores e eu. Agora, Clarilinda, só falta sarar. Não demora, até as alfazemas sentem sua falta.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Choramingas

O verdadeiro sexto sentido é a propriocepção. Graças a ela, ao nos movermos, temos a percepção de como nosso corpo ocupa o espaço, como nossos membros superiores e inferiores estão posicionados, sem olhar. É por isso que quando a estrutura corporal se altera bruscamente como no caso da adolescência nos tornamos desastrados. Todo mundo que já teve de enfaixar um dedo do pé por causa de um machucado sabe que aí é que não se consegue parar de dar topadas. E quando a alteração é do ambiente ? O sexto sentido também dança. Arranhões, cortes, luxações, pancadas. Cedo descobri que o hábito de colocar a panela para aquecer e abrir o vidro de molho depois, é totalmente impossível aqui, porque tenho que usar as duas mãos e fazer muita força. Aliás tenho que empregar o dobro da força que me habituei ao longo de 40 anos para abrir qualquer frasco. As embalagens tetrapck são mais grossas, tudo que é colado parece ser projetado para resisitir ao Armagedom, as latas podem amputar um dedo, o plástico que embala os pacotes de várias unidades, não pode ser rasgado, tem que se usar a faca. São quase tão grossos quanto lona plástica de caminhão.
E porque é que eu estou falando destas ninharias ? Para ver se esqueço a dor e queimação das minhas mãos que acabam de ser picadas por urtigas que nasceram ao lado dos espinafres. E o buraco no pé que fiz usando uma havaiana ao caminhar sobre a relva - aparada. Os caules parecem arames. É isso aí. Uma inocente ida à horta exige luvas e botas. Tudo pica, espeta, rasga e machuca. Estou tentando manter a calma.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Na ilha por vezes habitada

Desde a morte de Saramago, procurava algo dele para colocar aqui. Veio, finalmente, de Eliana, com quem partilho muito da poesia desta vida.
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.Então sabemos tudo do que foi e será.O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam.Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.Com doçura.Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.Cada um de nós é por enquanto a vida.Isso nos baste.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Maravilhas da natureza

Ontem a Lince apareceu com todas as crias aqui embaixo. A casinha do gás foi seu primeiro abrigo, escolhido por ela. Curiosamente, as crias, antes mesmo de eu abrir a portinhola, já estavam se esgueirando lá para dentro.
Hoje eles passaram o dia brincando no deck mas foi só a mãe se afastar para eles correrem para dentro da casinha e ficarem lá, amontoadinhos, esperando sua volta. E fizeram isso todas as vezes, até mesmo quando ela interrompeu de um salto a amamentação ao ouvir a janela por onde lhe passo a ração, se abrir. Imagina que maravilha. Toca o telefone, a mãe tem que sair correndo para uma reunião urgente e nem precisa avisar. Mal ela pega a bolsa, os bebês vão correndo para as caminhas e ficam lá, quietinhos, até ela voltar.

Enquanto isso, na sala de justiça

A Telefônica quer comprar a participação da PT ( Telefonia) na Vivo brasileira. Ofereceram, segundo consta, algo equivalente ao valor da PT. Os acionistas foram babando para a assembléia e votaram sim. No entanto, o governo tem as chamadas ações golden, que lhes dá direito de veto. Vetado está o negócio.
Por acaso, já fui cliente das três empresas. A Telefônica, todo mundo sabe, é aquela empresa espanhola que comprou por dois caquis podres a TELESP, o maior mercado de telefonia fixa do Brasil, uma maravilha de prejuízo ao erário público como só o PSDB sabe fazer. Eu pagava no Brasil, em euros, o TRIPLO do que pagamos aqui pela internet. Sim , você leu certo o TRIPLO. E mês sim, mês não, tinha que dar escândalo porque eles aumentavam a mensalidade. Nem vou falar sobre o preço das chamadas porque não tem graça. Eu pagava por uma ligação do meu fixo para um celular o mesmo que eu pago aqui, por uma ligação para o Brasil. Falar da qualidade do serviço, então, é chutar cachorro morto : um lixo. A PT é meio confusa, isso lá é verdade. Em compensação, instalaram 8 postes para trazer o cabo até a entrada da casa. A custo ZERO, claro. Apesar disso é uma empresa altamente lucrativa, investe pesado e absorve muita mão de obra.
E ainda tem gente que acredita que é grande negócio privatizar empresas públicas, sem qualquer atenção à sua importância estratégica. Viva o Sócrates que, de quebra, dificultou ao menos um pouco o avanço desta empresa de quinta categoria que é a Telefônica.
E agora me veio uma questão. Recebo de tudo, pela internet : desde abaixo assinado para salvar as moscas brancas até protestos contra o excesso de sal na manteiga mas nem uma palavra sobre o poder perverso das mega corporações nas nossas vidas. Até quando vamos ser tão bobinhos ?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Depois da chuva


É sabido que eu não gosto de calor. Ok. Se for sem nada para fazer, em uma casa fresquíssima, à beira mar, tomando suco de maracujá gelado, dá para aguentar. Qual o sentido de se trabalhar com o sol a pino ? Não consigo entender. Fico pensando nos índios deitados na rede ou então mergulhados nas águas do igarapé. Isto sim, é cem por cento lógico.Falem o que quiser da leseira dos trópicos, na minha opinião, é completamente justificável. Aqui, pelo menos, até as 11 da manhã é bem fresco. E como só escurece depois das 9 da noite, entre o fim do calor forte e a escuridão, tem um bom tempo para lavrar a terra. Mas e o insetos ? Ihhh… o verão é a mais cruel das estações. Só gosto depois da chuva. Olha as batatinhas, que lindas.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Reflexões da hora da sesta


Daí a pessoa me pergunta se me acostumei, se estou me adaptando, se vou me integrar. Muitas pessoas perguntam. É claro que eu sou estrangeira. A língua pode ser a mesma - e há controvérsia - a hospitalidade incrível, minha capacidade de adaptação proverbial que não muda nada. Para começar não tenho direitos políticos e olha que abuso disto. Leio sobre os meandros da vida nacional como se fosse ficção. O efeito colateral espetacular é que sinto o mesmo distanciamento da mãe pátria e percebo a futilidade de quase todas as angústias que vivi ao longo da vida. Ponto para o desterro. Para continuar faltam referências fundamentais da cultura, dos pequenos detalhes às grandes canções, das piadas incompreensíveis ao temores compartilhados, dos sabores da infância às manias nacionais, uma tonta, todo tempo a se espantar. A verdade é que para quem gosta de estudar e para quem a vida, sem novidade, nem vale a pena, não é de todo mal. A verdade é que o ser humano é tremendamente adaptável e o meu reino nem é deste mundo.
Me pergunto se daqui a alguns anos será possível esse estranhamento, considerando a ditadura da programação global das tvs a cabo e das séries americanas. Provavelmente não. Embora não me pareça que crianças e adolescentes portugueses se confundam com os nossos irmãozinhos. Infelizmente para nós.
Portugal é um país antigo, como se sabe, e portanto descolado. Entende-se, já viveu um bocado. Portugal só tem dez milhões de habitantes, uma capacidade produtiva que não é nenhuma Brastemp, mas se vira, ah, como se vira. É pobre , para os padrões europeus - para os nossos - dá vontade de rir quando começam a falar da terrível condição “da pobreza no interior do país”. Tem um passado colonial pelo qual não sentem culpa. Aliás, são da opinião que, em matéria de imperialismo, foram dos mais simpáticos e por isso nem gostam que falemos mal do nosso passado colonial. Mas eu sempre fico com a impressão que , no fundo, eles se orgulham de terem sido os reis da cocada preta e vivem para o sonho de voltar a sê-lo.
Perguntavam muito, nos primeiros dias, se eu estava gostando. É uma pergunta que só se faz aos turistas, eu acho. Só serve para a gente saber que impressão está causando. Ou para saber o grau de sinceridade do visitante. Eu gostava muito de perguntar isto aos turistas gringos no Brasil, especialmente aos estudantes americanos que andavam pela Bela Vista em intercâmbios de 6 meses. Wonderfull, amazing, diziam os tolinhos. Eu cutucava : mas a violência, e a miséria, e as crianças pedindo esmolas ? Veja bem, Nova York, eles diziam… e logo contra argumentavam , mas o povo brasileiro é tão amazing, wonderfull… Que coisa. É claro que turistas, em geral, só vêem a casca do negócio. Mas o Brasil, na minha opinião, é mesmo inenarrável, não importa o quanto a gente mergulhe … ou se afaste.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

enganos da modernidade


O título é uma boutade. O engano, no caso, foi obra da mais pura ignorância da vida natural. O gato Lince era gata e aí está ela parida, observando duas das cinco ( !) crias. A outro notícia do dia é que o Zygmunt Bauman, de quem sou fã de carteirinha, ganhou o prêmio de comunicação Príncipe das Astúrias. É pouco, ele merece um Nobel. As leituras de suas explicações sobre os engodos da pós modernidade me valeram mais do que as sessões de análise. Mais do que esclarecedor, é terapêutico para nossas ideias entortadas pelo zeitgeist. Para comemorar me permiti passar o dia em sessões de observação da vida animal. Fiquei pensando quão poucas oportunidades de observação do comportamento instintivo sobraram. Quero dizer, com exceção dos programas do Discovery . Pelo menos, com a imagem digital as crianças não correm o mesmo risco que eu - que até os doze anos de idade, achava que os porcos eram cor de rosa, como nos desenhos de Walt Disney.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Máscaras

As máscaras das festas populares da Península Ibérica são deslumbrantes. Meu sonho é montar uma parede com elas, um dia. Eu quase chorei de tristeza por perder o desfile, sábado último, nas Festas de Lisboa. Pra meu consolo, parece que há uma exposição no Rossio entre Junho e Julho. Já estou limpando a memória da máquina fotográfica.
Então, minha mente infantil que, como se sabe, vive sonhando com restos do dia, sonhou que eu ia andando até a aldeia, onde havia uma festa de máscaras e só eu não portava uma. Estava como que nuazinha de cara. Morta de vergonha, é claro.

domingo, 23 de maio de 2010

Gente que faz 3


Na Festa do Queijo, nas Janeiras, nas festas da cidade, onde haja oportunidade, lá estão eles, os bravos participantes dos Ranchos Folclóricos - aqui, com as roupas típicas dos serranos. A propósito... alguém podia me explicar porque é que a roupa do pastor da Serra da Estrela parece tanto com a roupa de festa dos camponeses do norte do México ?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Gente que faz 2

Vasco faz de tudo. Prefere estar ao ar livre mas dá show de competência em qualquer caso. Fez uma escadaria de pedra para a entrada da casa que só vendo. Montou todos os móveis, instalou todos os lustres, preparou a minha horta, construiu a nova área da queijaria, inventa ferramentas, conserta, recupera e faz questão de fazer coisas que "durem pelo menos cinco anos". O rosto meio escondido na foto é proposital. Não se deixa fotografar, não gosta que ocupem " seu" lugar na francela, não usa a touca branca, não come comida requentada, não vai a festas, enfim, é cheio de idiossincrasias como todo artista.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Gente que faz


Às quintas feiras tem processamento de queijo. Eu gosto de ir ajudar, especialmente a tirar requeijão que é uma espécie de ricota fabricada a partir do soro do leite. Este Sr. Francisco é muito bom em lavar queijos e identificar bandas pop dos anos 70, 80 e 90, já que o rádio fica ligado o tempo todo. Ele também acredita em espíritos e feitiçarias, tem mania de dizer " é normal" e já andou a fazer trabalhos sujos e pesados em quase toda Europa . Agora só quer tirar o nono ano e conseguir um emprego na EDP. Eu torço pelo Sr. Francisco.

Beleza

O assunto já está esquecido mas acontece que eu só li ontem, em um Café, a reportagem sobre a vinda do Papa por ocasião da revelação de Fátima. Não sou fã de Papas e menos ainda de Bento XVI mas que surpresa o seu discurso de despedida de Portugal.
" Fazei coisas belas. Tornai as vossas vidas lugares de beleza" . ´
Ele podia ir sempre por aí e deixar de produzir os conselhos infelizes costumeiros.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ditos e desditos

" A mulher é como um saquinho de chá, não se sabe quão forte é até que esteja em água quente". Diz que a Eleanora Roosevelt disse isso. Não sei se acredito. Nem sequer gosto muito da frase que é só um sucedâneo de " na têmpera se prova o ouro" e por aí vai. Então porque cito, hão de me perguntar. É que eu gosto de chá e gosto da idéia de que não sabemos nada, no final das contas, sobre a capacidade de resistência das pessoas- e quantas vezes nem da nossa.
Em tempo, a foto é de uma via sacra em tamanho natural, exposta nas seis capelas que ladeiam a escadaria da Igreja de Sto Antonio do Olivais, em Coimbra. A não se perder. Teatralíssimo.

Vá plantar batatas,

é fácil ! Especialmente se você tiver um cavalo, arado e uns gajos que sabem o que fazer. Falando sério; eu sempre imaginei que era uma coisa complicada, justamente por causa do " vai plantar batata" da forma como o empregamos. Nada. Aquelas batatas brotadas, sabe ? Corta em pedaços e vai jogando nos sulcos feitos pelo arado à distância de 40 cm um do outro. Na volta o arado vai jogando terra por cima. Que tecnologia fantástica. Dá pra entender a presença da batata como base da alimentação, nasce em apenas 4 meses. Porque plantar é fácil mas vai pensando que isso aqui é terra roxa não...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Flores de Maio

A foto não está das melhores mas as cores... que cores.


terça-feira, 11 de maio de 2010

Primavera na Serra

Há muitas, muitas flores no campo agora. As cores predominantes são ao amarelo, o branco e o lilás. No final dos anos 70 eu usava um vestido estampado com estas cores, para escândalo da patrulha fashion familiar. Aqui, percebo ainda melhor porque ele tanto me agradava. É uma combinação quase lisérgica, é só ficar olhando por cinco minutos que começa a rolar uma quase euforia. Só não consegui ainda uma foto tão boa quanto esta que aqui está, onde falta o lilás. Quando conseguir, posto.

Florzinha


Ela tem 91 anos e usa uma mantilha sob o chapéu, como as mulheres andinas. Anda devagarinho mas sem bengala e diz que ainda " faz comidinha" ( lavar a roupa, já não lava). Seu companheiro nada diz .

A dança das estações

Plantar na primavera, colher no verão, a disciplina das estações, ensina a lidar com a ansiedade. Fico pensando se a ansiedade urbana não é um resultado desta libertação dos ciclos e das horas, os projetos se podem sobrepor e realizar a qualquer hora, o que quer dizer uma liberdade completa : até para morrer de trabalhar. É como dizia aquele bispo inglês que foi à Câmara dos Comuns falar CONTRA a semana inglesa : é um atentado ao sagrado livre arbítrio impedir as pessoas de trabalharem doze horas por dia.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Cabo da Roca

Estou sentada no muro do cabo da Roca. É a ponta mais ocidental do continente europeu, o fim do dito cujo, abaixo um penhasco de uns 100 metros. É isso aí, é só pular de bico no marzão e navegar na direção que eu estou apontando pra ir dar na Terra Brasilis. Em dias cálidos como este até dá vontade de fantasiar uma travessia do Atlântico à vela ou de caiaque. Tem qualquer coisa neste Portugal que inclina mesmo ao desejo de se lançar ao mar, navegar, navegar. Ou o que ouço é o chamado do sangue ? Não sei quantos são os emigrantes portugueses mas é uma verdadeira diáspora. Os caras vivem se mandando para o mundo. Eu adoro a frase que andava por aqui nos outdoors de divulgação do navio-escola Sagres : " A sorte protege os audazes". Vou procurar saber mas acho que é do Camões.

Razão e sensibilidade

Veja como tudo na vida é compromisso. A gente abre um blog sobre o supérfluo, arranja 5 leitores e logo percebe que não é porque são poucos e o assunto só ninharias que não tem bronca. Obrigada por me darem tanta atenção. Eu gostaria de escrever mais. O que acontece é que como não quero fazer disto uma coisa confessional e considerando que vivemos em um mundo em que tudo já foi visto e comentado, a auto-censura corre solta. Além disso, o exercício da leveza nem sempre é fácil. Ok,para mim é quase sempre anti-natural. De todo modo, agradeço me cobrarem a retomar o que para mim é um difícil hábito de higiene - a mental.

sábado, 17 de abril de 2010


Festa da tosquia


Ontem começou a tosquia. As ovelhas ficam lindas, sem a lã; negras, negras. Dizem que a lã delas vale menos. Eu faria um tapete lindo, pena que não domine a artesania.
Hoje vai haver churrasco de porco. Que não chama churrasco (eles chamam frango assado de churrasco). Vão assar bifanas e entrecostos temperados na vinha d´alho. Tão servidos ?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

comportamento de risco

Como eu pressentia, daquela amizade sem limites de Tigre ( o gato) pela Estrela ( a cachorra) não poderia vir boa coisa. Morreu Tigre, o gato-pato, acostumado a se deixar abocanhar pela gigantesca pastora . Um amigo me disse que ele lhe fazia lembrar daqueles caras do circo que colocam a cabeça dentro da boca do leão.
Eu me lembrei foi de um poema do Brecht " disse a raposa à galinha, precisamos nos ver, nos conhecer bem, nos dar bem, por isso o chão está cheio de penas. " As raposas o levaram e não sobrou nem pelos.

terça-feira, 23 de março de 2010


domingo, 21 de março de 2010

As vovozinhas encantadoras

Esta gentil senhora concordou em se deixar fotografar realizando um desejo que tinha desde que cheguei. O que eu queria mesmo era fazer um álbum só com estas viúvas que se encontram em toda parte parecendo saídas de algum filme antigo, de algum tempo passado, de algum lugar longínquo. Vocês sabem que eu não sou nem um pouco saudosista mas estas senhoras despertam em mim um não sei que de nostalgia. No entanto, não são fáceis de serem apanhadas pela máquina fotográfica, são tímidas e discretas, o que só acrescenta coerência ao seu encanto.

Vovozinha


sábado, 13 de março de 2010

O mundo animal anda meio louco por aqui, pelo menos eu acho. O motivo é que o gato Tigre trocou a companhia do Lince pela cachorra. São agora inseparáveis e o Tigre só entra em contato com o irmão para brigar. O que se passa? A cachorra ainda tenta cooptar Lince, o outro gato, mas este se recusa a romper suas reservas instintivas, o que me faz feliz. Não acho que gatos e cachorros tenham que andar às turras mas daí viverem em idílio, com o gato se colocando em oposição aos de sua espécie, vai um longo passo. Essa situação me causa tanta estranheza quanto aquelas pessoas que julgam seus cães companhia melhor do que as pessoas. Alegam que seu caráter é mais confiável. Só acredito que o caráter dos animais de estimação seja melhor que o humano, no dia que vir um cachorro trabalhando para manter algum homem alimentado - e sem ser forçado a isso.

Notícias do mundo animal


segunda-feira, 8 de março de 2010

Essas são as couves da minha horta. Ao fundo é uma caixa de compostagem. As couves locais se parecem com a nossa couve manteiga mas são mais duras. O que explica o fato de minha mãe insistir em cozinhar em água as couves macias, que bastam refogar. Ela aprendeu a cozinhar com minha avó, que aprendeu com a sogra dela, que era portuguesa. O que não se explica são as pessoas manterem práticas que não se adequam às novas realidades. Ora, que bobagem estou falando ? As pessoas passam a vida a fazer isso.

sábado, 6 de março de 2010

As couves e a horta


O SÉTIMO SELO PORTUGUÊS

Por falar em fogo, eu recomendo a toda pessoa que se importa um pouco com a questão climática, ler O Sétimo Selo. É ficção, o estilo não é grande coisa mas o tema é o aquecimento global e tem o enorme mérito de trocar em miúdos assuntos áridos que só. O autor é José Rodrigues dos Santos, apresentador do telejornal da RTP1 e eu, que já simpatizava com ele, agora estou fã. A expressão está fora de moda mas senti que é isso, no mínimo : trabalho de utilidade pública.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Nem sempre a leveza

Peço desculpas antecipadas a meus 3 fiéis leitores por não poder falar de nenhuma ninharia esta semana. Foi uma semana cheia de gravidade, por algumas razões objetivas outras nem tanto e para completá-la um encontro, se bem que nem sei se é este o nome que devo dar, que me fez chorar. Da minha casa até a aldeia percorremos cerca de 800 m de terra, trecho que fazemos sempre muito devagar . Foi por isso também que pude observar bem demoradamente um rosto estranho - os que circulam nesta via são, quase sempre, pessoal da Quinta - que caminhava em sentido contrário. Usava um chapéu muito diferente, com a copa alta, roupas semelhantes às usadas pelos pastores mas com calças muito folgadas, soltas sobre uns sapatos puídos. À medida que nos aproximávamos eu me perguntava, que figura, que figura este homem me lembra. Já estávamos praticamente a cruzar com ele quando me veio a referência : um daqueles bêbados saídos de um livro do Dickens ! Que idéia estranha, pensei, ainda a tempo de perceber que, pelo menos quanto ao estado de sobriedade eu não me enganara. De onde, perguntei, é esse homem ? Da Folgosa ou alguma aldeia dessas, mas ele dorme por aí, olha , aqui mesmo, com os cachorrros ; e o meu companheiro apontou a soleira de uma casa que está sempre fechada. Tive uma reação orgânica imediata, uma dor no peito apenas por imaginar aquela pessoa dormindo naquele lugar imundo, como um cão. Depois, fiquei em choque ao constatar : desde que me mudei para Portugal, nunca mais vi um simples mendigo, nenhuma criança na rua, ninguém a pedir esmola. Por fim, lembrei de praticamente tropeçar nos mendigos na Praça 14 Bis e já não sentir quase nada. Então chorei.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O FOGO


Eu não sei nada da vida rural e minha falta de habilidade para as tarefas mais simples do universo campestre é risível. Acender a salamandra do meu quarto e mantê-la acesa é dos maiores desafios que já enfrentei. Penso nas figuras de linguagem ; avivar o fogo, manter o fogo aceso e sei que nunca as compreendi verdadeiramente, assim como todas as gerações urbanas, acostumada ao fogo fácil do fogão a gás. Em São Paulo também tinha uma salamandra mas era moleza. Usava toras de eucalipto cortadas à perfeição, ultra secas, praticamente industriais. Aqui tenho de me haver com uma lenha feita de gravetos, galhos e troncos caídos que ficaram duas semanas tomando chuva. Não importa, meu nome é Caramuru ( ou será Anhanguera?). E ainda esqueço o que sabia.

Hipotéticos

Supondo que a idéia do Thomas Mann faça sentido, pode-se inferir que, dado que estou imersa em novidades, o tempo passa muito devagar, daí que minha percepção vem é da ansiedade. É uma hipótese, auspiciosa até. Gosto do argumento dele ( do T. Mann) que lembra como os dias da infância são longos: nunca se viu uma criança reclamar- que- o- tempo –passa- voando. Puxa, já é Natal outra vez, nem percebi, o meu aniversário chegou rapidíssimo, outro dia mesmo eu tinha apenas 7 anos. .. O que prova, diz ele, que uma vida rica em novas experiências, faz o tempo avançar mais devagar. Já não tão incomum, é o sujeito careca se queixando de que ontem mesmo tinha 20 anos e, veja só, vai fazer 50, o filho dele já vai ser pai, como é que pode. Pode. Pela hipótese do Thomas é só o sujeito passar anos e anos fazendo as mesmas coisas, ou quase. O que, afinal, me fez lembrar um verso de C. Drummond : que triste são as coisas consideradas sem ênfase.

O TEMPO 2

O ritmo local ainda me causa estranhamento. Às vezes tenho a sensação de que ninguém tá nem aí para o tempo. Para citar um exemplo: estou sem internet em casa há dois meses, uma confusão que não vale a pena descrever; basta dizer que duas semanas foram gastas à espera de um formulário que veio pelo correio e que, depois de assinado, teve de ser novamente postado para só então… A provedora de internet não usa email ??? Ok. Às vezes eu acho graça mas nem sempre.
Desde sempre reparei que tudo anda mais devagar. Eu ainda era só uma turista a flanar em Lisboa e - quanta graça – a quase majestosa fleuma dos atendentes de balcão, negando-se terminantemente a ouvirem mais de um pedido ao mesmo tempo, não digo atenderem. Se tiver uma dezena de pessoas e três delas pedirem um café ao mesmo tempo, tudo pára . Uma pessoa pede um café, ele entrega o café e SÓ DEPOIS o outro pedido pode ser enunciado. Senão eles param de atender para dar um pito no cliente afoito. Acredite se quiser. Ao Seu Zé da Padaria da Rocha servindo 8 pingados, 10 pães na chapa, 3 sucos - dois com açúcar e gelo, o outro natural, pra já seu Zé,por favor, que eu tô atrasada, meu respeito e minhas saudades.
Até os caixas de supermercado parecem em câmera lenta. Outro dia tomei conhecimento de uma estatística : a produtividade é 30% menor em Portugal que no resto da União Européia. Obviamente, minha impressão sensível não deve ter nada a ver com os métodos e as finalidades da tal estatística. Mesmo assim tenho certeza de que qualquer paulistano diante de uma linha de produção portuguesa ia ter a mesma sensação: tá lento. Aqui no interior, esse mesmo paulistano, certamente sentiria ganas de matar ou morrer diante da lerdeza quase generalizada. Quero dizer, um paulistano hipotético.
Parodiando Nelson Rodrigues, é claro que toda generalização é burra. Veja bem, é um país que, pelo tamanho, realiza coisa a beça. Como se diz aqui e lá, devagar também se vai longe. Eu tenho sentimentos ambíguos . Por um lado, sinto até um certo orgulho de ter me libertado deste condicionamento neurótico, a pressa constante. Por outro, bem, por outro lado, a agilidade e a rapidez são uma beleza. E o belo e o bem…

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O TEMPO

Um assunto que me fascina é a alteração da percepção da passagem do tempo que nos acomete tão frequentemente. Sobre isso já falou Thomas Mann em A Montanha Mágica, que explico, em linhas muito simplificadoras : o tempo passa mais devagar quando estamos aprendendo alguma coisa, vivendo algo novo e passa muito rápido quando não aprendemos nada, só reproduzimos o mesmo. Em termos ; eu poderia levantar algumas dúvidas mas dá o que pensar e gravou-se profundamente porque a experiência da leitura deste livro me provocou uma alteração radical. Radical - porque é claro que ordinariamente todos sentimos perfeitamente o tempo voar, se arrastar, passar angustiantemente devagar, correr a galope, etc.. A narrativa, que fala muitas vezes sobre o tempo, foi me desorientando a ponto de eu não saber há quantos dias estava lendo o livro. Juro que é verdade. Achava que era domingo, fui ver, era quarta-feira de cinzas, eu havia começado na sexta feira , feitas as contas, não dava mais tempo de ver o desfile da Império Serrano, nada. No carnaval de 1991, entrei na Montanha na sexta feira e só saí na quarta feira, literalmente. Tipo aqueles caras que saem nos blocos de Olinda, dias e dias na esbórnia.