quarta-feira, 30 de junho de 2010

Maravilhas da natureza

Ontem a Lince apareceu com todas as crias aqui embaixo. A casinha do gás foi seu primeiro abrigo, escolhido por ela. Curiosamente, as crias, antes mesmo de eu abrir a portinhola, já estavam se esgueirando lá para dentro.
Hoje eles passaram o dia brincando no deck mas foi só a mãe se afastar para eles correrem para dentro da casinha e ficarem lá, amontoadinhos, esperando sua volta. E fizeram isso todas as vezes, até mesmo quando ela interrompeu de um salto a amamentação ao ouvir a janela por onde lhe passo a ração, se abrir. Imagina que maravilha. Toca o telefone, a mãe tem que sair correndo para uma reunião urgente e nem precisa avisar. Mal ela pega a bolsa, os bebês vão correndo para as caminhas e ficam lá, quietinhos, até ela voltar.

Enquanto isso, na sala de justiça

A Telefônica quer comprar a participação da PT ( Telefonia) na Vivo brasileira. Ofereceram, segundo consta, algo equivalente ao valor da PT. Os acionistas foram babando para a assembléia e votaram sim. No entanto, o governo tem as chamadas ações golden, que lhes dá direito de veto. Vetado está o negócio.
Por acaso, já fui cliente das três empresas. A Telefônica, todo mundo sabe, é aquela empresa espanhola que comprou por dois caquis podres a TELESP, o maior mercado de telefonia fixa do Brasil, uma maravilha de prejuízo ao erário público como só o PSDB sabe fazer. Eu pagava no Brasil, em euros, o TRIPLO do que pagamos aqui pela internet. Sim , você leu certo o TRIPLO. E mês sim, mês não, tinha que dar escândalo porque eles aumentavam a mensalidade. Nem vou falar sobre o preço das chamadas porque não tem graça. Eu pagava por uma ligação do meu fixo para um celular o mesmo que eu pago aqui, por uma ligação para o Brasil. Falar da qualidade do serviço, então, é chutar cachorro morto : um lixo. A PT é meio confusa, isso lá é verdade. Em compensação, instalaram 8 postes para trazer o cabo até a entrada da casa. A custo ZERO, claro. Apesar disso é uma empresa altamente lucrativa, investe pesado e absorve muita mão de obra.
E ainda tem gente que acredita que é grande negócio privatizar empresas públicas, sem qualquer atenção à sua importância estratégica. Viva o Sócrates que, de quebra, dificultou ao menos um pouco o avanço desta empresa de quinta categoria que é a Telefônica.
E agora me veio uma questão. Recebo de tudo, pela internet : desde abaixo assinado para salvar as moscas brancas até protestos contra o excesso de sal na manteiga mas nem uma palavra sobre o poder perverso das mega corporações nas nossas vidas. Até quando vamos ser tão bobinhos ?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Depois da chuva


É sabido que eu não gosto de calor. Ok. Se for sem nada para fazer, em uma casa fresquíssima, à beira mar, tomando suco de maracujá gelado, dá para aguentar. Qual o sentido de se trabalhar com o sol a pino ? Não consigo entender. Fico pensando nos índios deitados na rede ou então mergulhados nas águas do igarapé. Isto sim, é cem por cento lógico.Falem o que quiser da leseira dos trópicos, na minha opinião, é completamente justificável. Aqui, pelo menos, até as 11 da manhã é bem fresco. E como só escurece depois das 9 da noite, entre o fim do calor forte e a escuridão, tem um bom tempo para lavrar a terra. Mas e o insetos ? Ihhh… o verão é a mais cruel das estações. Só gosto depois da chuva. Olha as batatinhas, que lindas.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Reflexões da hora da sesta


Daí a pessoa me pergunta se me acostumei, se estou me adaptando, se vou me integrar. Muitas pessoas perguntam. É claro que eu sou estrangeira. A língua pode ser a mesma - e há controvérsia - a hospitalidade incrível, minha capacidade de adaptação proverbial que não muda nada. Para começar não tenho direitos políticos e olha que abuso disto. Leio sobre os meandros da vida nacional como se fosse ficção. O efeito colateral espetacular é que sinto o mesmo distanciamento da mãe pátria e percebo a futilidade de quase todas as angústias que vivi ao longo da vida. Ponto para o desterro. Para continuar faltam referências fundamentais da cultura, dos pequenos detalhes às grandes canções, das piadas incompreensíveis ao temores compartilhados, dos sabores da infância às manias nacionais, uma tonta, todo tempo a se espantar. A verdade é que para quem gosta de estudar e para quem a vida, sem novidade, nem vale a pena, não é de todo mal. A verdade é que o ser humano é tremendamente adaptável e o meu reino nem é deste mundo.
Me pergunto se daqui a alguns anos será possível esse estranhamento, considerando a ditadura da programação global das tvs a cabo e das séries americanas. Provavelmente não. Embora não me pareça que crianças e adolescentes portugueses se confundam com os nossos irmãozinhos. Infelizmente para nós.
Portugal é um país antigo, como se sabe, e portanto descolado. Entende-se, já viveu um bocado. Portugal só tem dez milhões de habitantes, uma capacidade produtiva que não é nenhuma Brastemp, mas se vira, ah, como se vira. É pobre , para os padrões europeus - para os nossos - dá vontade de rir quando começam a falar da terrível condição “da pobreza no interior do país”. Tem um passado colonial pelo qual não sentem culpa. Aliás, são da opinião que, em matéria de imperialismo, foram dos mais simpáticos e por isso nem gostam que falemos mal do nosso passado colonial. Mas eu sempre fico com a impressão que , no fundo, eles se orgulham de terem sido os reis da cocada preta e vivem para o sonho de voltar a sê-lo.
Perguntavam muito, nos primeiros dias, se eu estava gostando. É uma pergunta que só se faz aos turistas, eu acho. Só serve para a gente saber que impressão está causando. Ou para saber o grau de sinceridade do visitante. Eu gostava muito de perguntar isto aos turistas gringos no Brasil, especialmente aos estudantes americanos que andavam pela Bela Vista em intercâmbios de 6 meses. Wonderfull, amazing, diziam os tolinhos. Eu cutucava : mas a violência, e a miséria, e as crianças pedindo esmolas ? Veja bem, Nova York, eles diziam… e logo contra argumentavam , mas o povo brasileiro é tão amazing, wonderfull… Que coisa. É claro que turistas, em geral, só vêem a casca do negócio. Mas o Brasil, na minha opinião, é mesmo inenarrável, não importa o quanto a gente mergulhe … ou se afaste.