quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

gatos e cachorros



Não é que não gostemos de animaizinhos mas daí tê-los a circular dentro de casa seria demais para nossos princípios. Também por isso não vou dizer que tenho dois gatos. Eles foram trazidos para cá e eu me responsabilizei, voluntariamente, por alimentá-los, defendê-los dos ataques dos cães enormes que andam pela Quinta e franqueei sua permanência no depósito de gás que sequer os protege completamente da chuva. Dei-lhes nomes também, os mais dignos que pude imaginar, e aparentemente eles aceitaram pois respondem respectivamente por Lince e Tigre ( o Lince responde mais que o Tigre). Portanto considero que eles continuam a ser gatos livres com algum apoio logístico. Já a Estrela é menos que isso. É uma filhote de Pastor da Serra que um dos homens trouxe para o curral das ovelhas e deixou entregue à própria sorte. Alimentei-a uma única vez e ela decidiu me adotar. Fica plantada no deck do meu quarto, vigiando a paisagem e atazanando os gatos. Não lhe dei sequer um capacho mas no outro dia, ela rasgou uma caixa de papelão esquecida na porta e o tem usado para dormir. Por outro lado tenho lhe fornecido algumas lições de civilidade e coexistência pacífica, evitando que ela destroce os gatos com seus dentinhos e patas avantajadas e impedindo que ela devore toda a comida deles. Então, se fosse definir as minhas relações com este trio eu diria : estamos aprendendo uns com os outros .

Portugues, portugueses

Usa-se umas expressões muito engraçadinhas. “Bem haja”, que quer dizer obrigado, segundo consta, só é usado aqui na região norte. O “ como se não houvesse amanhã” ontem mesmo ouvi, dita a respeito de um viciado em bicicleta ergométrica “ … e é assim que, todos os dias, o Sr. Antônio pedala, como se não houvesse amanhã”. Agora, dizer adeus e receber em resposta um “ Saudinha!” ( com o di pronunciado à maneira paulistana) é o máximo.

Valor

Estou há dias sem internet em casa, por isso não tenho postado. Algumas idéias e comentários interessantes se perderam. Minha memória não vale um escudo. Acho o escudo literariamente falando, mais interessante que o euro. Além disso- não- o escudo não morreu. A maior parte das pessoas com mais de 30 anos, basta você dizer que algum preço lhe parece barato e logo vão fazendo a conversão : 2.000 euros, espera lá, ó pá, são aí mais de não sei quantos contos… Ou seja, a moeda mudou mas a escala de valores nem tanto. Também á unânime a opinião de que depois do euro a vida tornou-se muito mais cara. Arrumando velhos guardados encontrei uma nota de dez mil , novinha.Fiquei sabendo que se pode trocar no Banco Nacional – a nota que eu encontrei vale 50 euros. Penso naquele bolo de notas que achei em uma mala velha no sótão, em São Paulo - cruzeiros, cruzeiros novos, cruzados, novos cruzados, que ninguém teria a mais pequena ideia de quanto valeriam e entendo o apego deles. E já que o assunto é dinheiro. Chega a ser revoltante comparar os preços dos alimentos aqui com os que eu pagava em São Paulo. Feito câmbio a diferença é , em média, de 30 por cento. Seria pouco, se o Real não valesse quase 3 vezes menos. Alguém me explica, por favor ?

Das fotografia

Quando você vai lavar a vasilha de água dos gatos e encontra uma pedra de gelo do tamanho do recipiente fica difícil acreditar nas imagens do Brasil, com as pessoas torrando ao sol. Um lado irracional do cérebro parece meu vizinho dos anos sessenta que viu os astronautas pisando na Lua e não teve dúvida: isso é truque DAS fotografia.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Cerdeira 2

Cerdeira é como o povo chamava à cerejeira que não dá fruta.
Estou sem internet, não tenho postado, pouco tenho escrito ou feito qualquer coisa. Parece que estou na Bahia. Cerdeira e tal. Mas eu volto. Logo passam as festas de comer até estourar, a internet volta, retorno ao meu sacrossanto sossego. Mal posso esperar.

Cerdeira

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009



Esta é Belmonte. Ok, vista assim não parece grande coisa. A curiosidade é :esta é a terra natal de quem ? Pedro Álvares Cabral. Tem mais. A turma aí com 70 anos, que curte história, tem na ponta da língua : " E olhe que ele levou uma imagem de Nossa Senhora da Preces na expedição para o Brasil. Aquela Nossa Senhora ! Se pode avistar daqui ! ". Então é isso, estou na Serra da Estrela, terra natal de Pedro Álvares Cabral.
Até rimou mas, nesta altura, convenhamos, é o de menos.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Pobre diabo




Ontem fomos ao cinema ver" Pânico em Hollywood" não sei o título original, filme bem feito, com o Robert de Niro, etc, um roteiro redondinho e - o que gostei - parece um filme de ação, não sendo absolutamente. Quero dizer: pulsa como um filme de ação explorando o streess do produtor de cinema encarnado pelo De Niro, às voltas com o divórcio, as exigências da indústria, os caprichos das estrelas e toda a sorte de ninharias que compõem o dia a dia de um personagem desses. Apesar de meu companheiro ter gostado menos que eu, ao menos concordamos que é uma boa história mostrando que pobre diabo pode ser alguém que, aos olhos do senso comum, está no topo do mundo. Não é grande cinema, é claro, mas diverte.


sábado, 5 de dezembro de 2009

Ainda do Porto

O Rio D´Ouro não foi sempre azul, foram as muitas intervenções ao longo de seu curso que o fizeram perder a cor dourada. Quem me disse foi Jaime Froufe, um jornalista bom de papo e bom de copo. Ele escreveu um livro sobre sua participação como Alferes miliciano ranger em 1968/70 na guerra de Moçambique. Já acostumada com a prosa fácil e o estilo cordial do autor, começo a leitura com a alma despreocupada; às primeiras páginas me parece ouvir sua voz a contar mais uma de suas histórias. Até chegar a esta passagem: " As palhotas, camufladas pela copa das árvores, são um hino ao artesanato. Sem um prego, sem um tijolo, um vidro, construíram abrigos enxutos e funcionais. E até graciosos. Vejo--me de archote na mão a chegar-lhes fogo. " Fecho o livro, vou tomar uns ares. " Não sabes como vais morrer" é um bom título e me leva a muitas livre-associações. Uma não tão livre, trouxe à lembrança uma conversa com o saudoso Gianni Rato sobre a atmosfera eletrizante da Segunda Guerra. Era muito jovem quando serviu na resistência e, como homem de teatro, observava que aquela intensidade e paixão que a vida assumiu, nunca mais , a não ser no palco. A adrenalina da guerra oblitera o senso moral e também dá prazer. Isto vale pra qualquer guerra.
Quem ainda acredita que é o ódio a causa, o motor da guerra ou o pior das paixões humanas?
Os relatos de guerra me chocam é por explicitar a capacidade que temos de destruir o que admiramos, dissipar o que reconhecemos como valioso e matar o que amamos. É, dos nossos contraditórios, o que ainda me põe perplexa, não importa quantas vezes o testemunhe.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Portugal, Brasil.

O Porto tem mesmo qualquer coisa de Rio de Janeiro. Claro que o mais correto seria dizer o contrário, afinal, foi o Porto que nasceu primeiro. Eu penso que um mercado central com nome de Bolhão, por exemplo, ficava perfeitamente bem ao lado da Central do Brasil. O que me intriga é a presença do Brasil no imaginário português. Não me lembro de ter assistido a algum telejornal em que o Brasil ou os brasileiros não fossem citados. Ontem foi o próprio Sócrates, o primeiro ministro. A discussão sobre o controle de renda e patrimônio corria solta no parlamento. Debate inflamado, defesa de que a fiscalização sobre ganhos deve ser rigoroso. Vai então o ministro mor e me sai com esta " ...mas então que se diga : veio cá isto (o dinheiro) de uma tia, uma tia lá do Brasil (risos gerais) porque senão, o gajo vai ter explicar de onde veio o dinheirinho... (sic)". Antes de ontem foi uma senhora, cuja identidade vinha protegida pois agora vive em um centro de proteção à vítimas de violência doméstica " Eu já andava desesperada. Já pensava em fugir, pensava : vou me embora para o Brasil...". No outro dia foi... todo dia tem algo do gênero.
Nem vou comentar sobre o desejo geral de ir ao Rio de Janeiro, voltar ao Rio de Janeiro, conhecer o Rio de Janeiro, conhecer a Bahia, e que tal Brasília, e Fortaleza, ah, tão grande, tão grande esse país.
Tem outra coisa. Todos, eu disse, todos os portugueses com os quais conversei praticamente ignoram as influências africana, indígena, italiana, etc.na cultura brasileira.
Parece aquela avó ciumenta que quando você começa a falar da outra avó, muda de assunto. Aliás, eu tenho mesmo a impressão de que nosso parentesco é este. Irmãos que nada. O Vô não se conforma. Seja para elogiar, seja para criticar, o neto não lhe sai da cabeça. Já o neto, só fala do vô se perguntado : " Ah.. Meu avô é legal.".

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009


Imigrantes e Emigrantes

A prima Lourdes deixou, há muitos anos, essa casa na aldeia. Uns dias antes de meu casamento, ela nos levou até lá para ver se algo nos interessava. Ganhamos uma bela mesa centenária, de carvalho, cujo engenhoso sistema de abrir permite acomodar bem umas dez pessoas. Também fiquei conhecendo a enorme coleção de "santinhos" de seu marido, já falecido. Ela diz "era do meu homem", como dizem as mulheres daqui. Mora só em uma casa enorme que pertence à filha que vive na Inglaterra. Emigrante.
Nos primeiros dias de agosto, andávamos a resolver questões burocráticas e volta e meia eu ouvia " Nesta época é difícil. Faltam funcionários por causa das férias de verão e andam por aí todos esses imigrantes ..." O tom não era exatamente elogioso e eu, já um pouco preocupada, me perguntava se o incômodo era causado pelos romenos, brasileiros ou ambos. Até que um dia soube que não éramos nós o alvo de um certo deboche. Emigrantes são os portugueses que vão trabalhar nos países ricos. Alemanha, França e Inglaterra, são os destinos preferidos. São eles que voltam, nas férias de verão, com seus carrões de gosto questionável, presentes em quantidade e congestionam os serviços públicos locais. Ah bom.