Tem uma notícia não tão recente que não me sai da cabeça. A do PM que foi baleado enquanto tentava negociar a rendição de um bandido que mantinha 3 reféns. Ele estava sem colete.
Porque é que ele estava sem colete ? Tem duas versões : Saiu na pressa, disse o comandante. A outra dá conta que ele tirou o que tinha conseguido emprestado para dar ao cinegrafista da Rede de TV. O cinegrafista tinha ido lá produzir o circo de cada dia, precisava estar lá, senão na hora do café da manhã, o que é que as pessoas iam passar no pão ? O fabricante de margarina só patrocina o jornal se der Ibope. Não dá pra improvisar, explorar os nossos baixos instintos é lucro certo.
Fiquei chateada, quando li a notícia. Porque é que o cara estava sem colete ? O cara não tinha nada que estar sem colete. Se ele estivesse de colete, se salvava. Não. Depois eu soube que o colete não ia adiantar nada. A bala entrou pelo braço e passou pela lateral, o colete não ia poder detê-la. O cara morreu. Fiquei chateada. Depois me veio uma certeza; é isso aí, nós somos todos uns sem-colete. E quem pensa que está seguro porque usa um, está enganado.Ou um dia vai sair de casa apressado, todo mundo sai de casa apressado, e num belo dia desses, vai esquecer o colete. Se não for você, vai ser seu filho, seu vizinho, seu amigo, sua mãe, sua irmã, alguém vai acabar esquecendo o colete.
Nós temos índices de violência equivalentes a de países em guerra, dos países que oficialmente estão em estado de guerra. Não adianta colocar mais soldado na rua. Nas guerras, o que mais tem é soldado nas ruas, dos dois lados do conflito. Numa guerra, nem mesmo o colete salva. Então a gente finge que não está em guerra (tem também os que vivem em função dos coletes que não adiantam nada). Daí me lembrei de relatos que ouvi de pessoas que viveram em países em guerra. No Brasil, igualzinho o que acontece nos países em guerra, as pessoas estudam, trabalham, dão festas, vão ao cinema, ouvem música romântica, tomam todas, ficam quietinhos na toca, caem na vida. Todo mundo, quando pode, finge que não está em guerra . A gente finge que nossas mensagens de amor, que nossas orações pela paz, que nossas boas intenções, bons pensamentos, bons hábitos, serão nosso colete de salvação. Não são e não serão. Porque enquanto a gente está fazendo tudo isso, os senhores da guerra estão escrevendo em todos os muros a máxima que move a guerra: a vida não vale mais do que a grana, tudo que importa é a grana. E é por isso que os mais objetivos, os mais pragmáticos, continuam a levar ao pé da letra a mensagem, continuam levando o muro a peito, disparando quantas balas forem necessárias para pegar grana, para ganhar grana, para defender a grana, para embolsar grana ou, mais grana. Guerra é guerra. Onde tudo que importa é ter grana e vale tudo para ter grana, quem acha que está usando colete, quem acha que está a salvo, só está se enganando. Estamos todos sem colete e precisamos parar de fingir que a guerra não é conosco. Ou que a solução para acabar com a guerra é produzir mais guerra.