
O Rio D´Ouro não foi sempre azul, foram as muitas intervenções ao longo de seu curso que o fizeram perder a cor dourada. Quem me disse foi Jaime Froufe, um jornalista bom de papo e bom de copo. Ele escreveu um livro sobre sua participação como Alferes miliciano ranger em 1968/70 na guerra de Moçambique. Já acostumada com a prosa fácil e o estilo cordial do autor, começo a leitura com a alma despreocupada; às primeiras páginas me parece ouvir sua voz a contar mais uma de suas histórias. Até chegar a esta passagem: "
As palhotas, camufladas pela copa das árvores, são um hino ao artesanato. Sem um prego, sem um tijolo, um vidro, construíram abrigos enxutos e funcionais. E até graciosos. Vejo--me de archote na mão a chegar-lhes fogo. " Fecho o livro, vou tomar uns ares. "
Não sabes como vais morrer" é um bom título e me leva a muitas livre-associações. Uma não tão livre, trouxe à lembrança uma conversa com o saudoso Gianni Rato sobre a atmosfera eletrizante da Segunda Guerra. Era muito jovem quando serviu na resistência e, como homem de teatro, observava que aquela intensidade e paixão que a vida assumiu, nunca mais , a não ser no palco. A adrenalina da guerra oblitera o senso moral e também dá prazer. Isto vale pra qualquer guerra.
Quem ainda acredita que é o ódio a causa, o motor da guerra ou o pior das paixões humanas?
Os relatos de guerra me chocam é por explicitar a capacidade que temos de destruir o que admiramos, dissipar o que reconhecemos como valioso e matar o que amamos. É, dos nossos contraditórios, o que ainda me põe perplexa, não importa quantas vezes o testemunhe.
Nenhum comentário:
Postar um comentário