sábado, 20 de fevereiro de 2010

Nem sempre a leveza

Peço desculpas antecipadas a meus 3 fiéis leitores por não poder falar de nenhuma ninharia esta semana. Foi uma semana cheia de gravidade, por algumas razões objetivas outras nem tanto e para completá-la um encontro, se bem que nem sei se é este o nome que devo dar, que me fez chorar. Da minha casa até a aldeia percorremos cerca de 800 m de terra, trecho que fazemos sempre muito devagar . Foi por isso também que pude observar bem demoradamente um rosto estranho - os que circulam nesta via são, quase sempre, pessoal da Quinta - que caminhava em sentido contrário. Usava um chapéu muito diferente, com a copa alta, roupas semelhantes às usadas pelos pastores mas com calças muito folgadas, soltas sobre uns sapatos puídos. À medida que nos aproximávamos eu me perguntava, que figura, que figura este homem me lembra. Já estávamos praticamente a cruzar com ele quando me veio a referência : um daqueles bêbados saídos de um livro do Dickens ! Que idéia estranha, pensei, ainda a tempo de perceber que, pelo menos quanto ao estado de sobriedade eu não me enganara. De onde, perguntei, é esse homem ? Da Folgosa ou alguma aldeia dessas, mas ele dorme por aí, olha , aqui mesmo, com os cachorrros ; e o meu companheiro apontou a soleira de uma casa que está sempre fechada. Tive uma reação orgânica imediata, uma dor no peito apenas por imaginar aquela pessoa dormindo naquele lugar imundo, como um cão. Depois, fiquei em choque ao constatar : desde que me mudei para Portugal, nunca mais vi um simples mendigo, nenhuma criança na rua, ninguém a pedir esmola. Por fim, lembrei de praticamente tropeçar nos mendigos na Praça 14 Bis e já não sentir quase nada. Então chorei.

Um comentário:

  1. Errado ou certo, paramos de ver por isso mesmo. Como a dor que me fazia andar junto às paredes para não cair: uma vez que eu não sabia o que fazer para elimaná-la, eu parei de pensar nela. Mas ela doía e não se curou assim.
    Por fim a gente começa a reclamar é de quem fica vendo, ainda, e aponta, aponta, aponta...
    Eu choro sempre, péssimo exemplo de autocontrole. E não sei procurar a cura. Ou será que não tenho coragem de tomar o remédio?

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