Não é muito e não é pouco, a verdade completa é que acho a conta certa e justa para uma despedida. Não há de ser nada, repito. Como boa cigana, sou versada em artes do adeus, em montar malas de viagens e álbuns de recordações mentais. Confesso minha maluquice. Fico olhando para as coisas e imaginando do que é que vou sentir falta - ou não. Já comecei o exercício de desapego afetivo e no topo da lista de pequenas penas está a paisagem. A semana toda tenho estado envolvida com a percepção mais apurada do espaço. Para todo lado que eu vá, em todos os momentos do dia, a vastidão me acompanha. Quase nunca há grandes obstáculos para os olhos alcançarem o horizonte. Isto nunca chegou a me passar desapercebido mas, com a intenção alerta, os sentidos se aguçam. Respiro como nunca – e o ar daqui também não é de se jogar fora, muito pelo contrário. As percepções todas se ampliam. A informação de que estas montanhas são feitas de granito duro e lascas de xisto foi introjetada. Alguma coisa de sua solidez e força, sinto, agora fazem parte de mim. É primavera - abril águas mil - mas já sei contrapor ao verde e às primeiras flores, as cores de outras estações.Lembrar-me que já não verei os ocres do outono, dói um pouco, confesso. Em compensação sei que nunca mais esquecerei o que quer dizer terra saibrosa, nem deixarei de sentir o toque áspero do que aqui se chama relva. Carvalhos são árvores também inesquecíveis. Há uma dignidade nelas que nem os jatobás da minha terra conseguem superar. Assim como a floresta de pinheiros, parecem ter estado sempre aqui, resistentes como o povo que com elas cohabita. Ainda não estou pronta para dizer adeus às pessoas, também por isso alongo o entreter-me com a paisagem. Hoje chove e a umidade é meu elemento original mas na minha terra, eu sei, até a umidade é outra. Por enquanto abraço esta que me abraça e deixo escapar umas lagrimazinhas de pura nostalgia do que ainda vou perder. Não há de ser nada, repito, bebendo vastos goles de ar desta que não mais deixará de ser, para mim, a amada Serra.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
o começo e o fim
Não é muito e não é pouco, a verdade completa é que acho a conta certa e justa para uma despedida. Não há de ser nada, repito. Como boa cigana, sou versada em artes do adeus, em montar malas de viagens e álbuns de recordações mentais. Confesso minha maluquice. Fico olhando para as coisas e imaginando do que é que vou sentir falta - ou não. Já comecei o exercício de desapego afetivo e no topo da lista de pequenas penas está a paisagem. A semana toda tenho estado envolvida com a percepção mais apurada do espaço. Para todo lado que eu vá, em todos os momentos do dia, a vastidão me acompanha. Quase nunca há grandes obstáculos para os olhos alcançarem o horizonte. Isto nunca chegou a me passar desapercebido mas, com a intenção alerta, os sentidos se aguçam. Respiro como nunca – e o ar daqui também não é de se jogar fora, muito pelo contrário. As percepções todas se ampliam. A informação de que estas montanhas são feitas de granito duro e lascas de xisto foi introjetada. Alguma coisa de sua solidez e força, sinto, agora fazem parte de mim. É primavera - abril águas mil - mas já sei contrapor ao verde e às primeiras flores, as cores de outras estações.Lembrar-me que já não verei os ocres do outono, dói um pouco, confesso. Em compensação sei que nunca mais esquecerei o que quer dizer terra saibrosa, nem deixarei de sentir o toque áspero do que aqui se chama relva. Carvalhos são árvores também inesquecíveis. Há uma dignidade nelas que nem os jatobás da minha terra conseguem superar. Assim como a floresta de pinheiros, parecem ter estado sempre aqui, resistentes como o povo que com elas cohabita. Ainda não estou pronta para dizer adeus às pessoas, também por isso alongo o entreter-me com a paisagem. Hoje chove e a umidade é meu elemento original mas na minha terra, eu sei, até a umidade é outra. Por enquanto abraço esta que me abraça e deixo escapar umas lagrimazinhas de pura nostalgia do que ainda vou perder. Não há de ser nada, repito, bebendo vastos goles de ar desta que não mais deixará de ser, para mim, a amada Serra.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Não diga adeus...diga adeusinho, como os da terra. E respire, veja, reveja, beba...tudo, com este gosto de despedida especial, porque elaborada, consciente que a tatuagem já está feita...de certa maneira já tens uma Serra...só tua, vem contá-la aos Jatobás, eles ainda estão por aqui...Você precisa fazer o caminho de volta...da Serra à Cidade, o inverso do Eça...hehehe.
ResponderExcluirEngraçado você dizer isso, Lourdes, pois saiba que a primeiro coisa que reli aqui foi justamente o Eça. Outro dia pensei o que ler na volta a São Paulo, pensei em Oswald Andrade mas... decidi. Quanto desembarcar vou à Cultura e escolho o que calhar, rsss.
ExcluirIsso gostei...Cultura ou da Vila...ou da esquina...assim, sentindo...flanando e deixando acontecer! E depois... um sorvetão na Viena...hahaha!
ExcluirA mulher que nunca, nunca me surpreende ao me surpreender...
ResponderExcluirAi, Ana, adeus... o adeus.
Não sei se aprendi a dizer adeus. Ou se aprendi a dizer estou aqui. Nunca criei limo, não muito. Só fui sendo polido, eu acho. Ficaram poucas arestas onde se prender a poeira e terra, embora ainda as tenha.
Mas até a dor da partida faz parte da alegria de chegar em algum lugar e ter de onde lembrar e sentir dor.
Às vezes temo pelo meu futuro, mas não temo o futuro, o que seria um tanto inútil e fantasioso. Senão produzo um futuro ele não existe e por isso dele não posso ter medo. Meu medo, medinho devo dizer, é se terei algum futuro. Mas também isso é tolice temer, embora seja um tanto inevitável para mim, tanto quanto espirrar e sentir a pele se arrepiar de frio. Como disse, futuro algum existe se não o produzimos. Então apenas do presente e do que nele eu tramo e teço eu devo me ocupar.
É preciso ter coragem apenas agora. Agora. Agora de novo.
É Migs, o título da biografia da presidenta cai bem a toda hora : o que a vida quer de nós é coragem !
ResponderExcluir