Uma coisa que sempre mereceu comentários de quem frequentava meu apartamento em São Paulo era o silêncio. Localizado a menos de 500 metros da 9 de julho é mesmo de espantar. O ruído vem quase que exclusivamente dos aparelhos sonoros da vizinhança - e parece pouco, considerando a densidade do barulho em que vivemos imersos na megacidade.
Aqui não há vizinhos o que quer dizer que só ouço o que eu quero. O silêncio é revelador . Às vezes, em pleno dia, posso ouvir minha respiração. Lendo, por exemplo, acontece de perceber reações físicas que acompanham os movimentos do meu pensamento. Tão sutis o pulso que se acelera, o suspiro que me escapa, me vem um prazer infantil de descoberta da convivência tão íntima do corpo-mente. Há também a música dos gestos do outro, quando não há nenhum ruído que os disperse e do seu ritmo, quase se pode deduzir as batidas daquele coração. Os detalhes sonoros do existir revelam sentidos inesperados. Quando lembro de meu cotidiano há meros 4 meses me pergunto se alguma parte daquilo tudo que andava fazendo parecia pleno de sentido simplesmente porque fazia barulho.
Tudo que cresce, cresce em silêncio. Quem disse isso ?
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
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Minha esperança era de que a 'nova riqueza' do Brasil trouxesse um mínimo de compostura pra este povinho barulhento. Mas que nada, o negócio é entupir a vizinhança de barulho de aspiradores de pó (o eletrodoméstico mais inútil que existe), cachorros neuróticos, motos infernalmente barulhentas, gente que conversa sem estar no mesmo cômodo...
ResponderExcluirComentário perfeito do saudoso Doug: "I'm too old for that crap". E tenho dito.
Tão gostoso o teu blog.
ResponderExcluirPoderia comentar um por um dos seus dias, tamanha a riqueza deles e a precisão nas impressões visuais, sensoriais, auditivas...
Escolhi este por que é muito curioso lembrar nesse momento os somente 4 meses passados e já a diferença de silêncios entre os lugares.
Pra mim o que é mais ensurdecedor é o silêncio da sua voz.
Hoje estou te ouvindo novamente nesse caderno.
Saudades e amor